Terminada a época de exames
e depois de mais uma semana enclausurada em casa a estudar, a Margarida decidiu
sair com as colegas da faculdade. Produziu-se como há muito não fazia, estava
determinada a divertir-se e a beber uns copos para compensar a vida dura que
tinha tido nos últimos dias.
Assim que entrou na
discoteca, segredou ao ouvido da Joana, companheira de grandes noitadas: “minha
amiga eu hoje quero esquecer os exames e digo-te já que estou em modo BEIJAR,
BEIJAR, BEIJAR! Vê lá se encontras um borracho daqueles jeitosos!” A Joana
soltou uma gargalhada e disse-lhe “eu acho que até já sei quem é que te vai
acompanhar o resto na noite. Olha só para o borrachinho que está no bar a olhar
para ti.” Em segundos, os olhos da Margarida percorreram o bar e esbateram com
o olhar atento e cúmplice do Guilherme. A Margarida sorriu e foi ao seu encontro.
–
Olá Guilherme! Não estava nada à espera de te ver por cá. Eu sei que fiquei de
ligar-te depois da conferência para tomarmos um café mas os exames acabaram
comigo. Fiquei sem tempo para nada.
–
Como eu te compreendo! Também estive ocupado a estudar mas confesso que pensei
que não me irias ligar.
–
O que importa é que o acaso juntou-nos na mesma discoteca, não é? Estás
sozinho?
–
Não, vim com o meu amigo Afonso. Ele estava há pouco por aqui mas depois viu
uma amiga e foi lá ter com ela. Pela demora devem estar a pôr a conversa em
dia, se é que me entendes.
–
Pois, estou a ver. – disse-lhe piscando-lhe o olho. – eu não queria deixar-te
aqui sozinho mas tenho que ir beber um copo com as minhas amigas porque hoje
temos muito que comemorar! Mas daqui a pouco estou de volta, ok?
–
Ok, eu vou ficar por aqui à tua espera. Não fiques muito tempo longe de mim
miúda, ta? – disse-lhe apertando carinhosamente a mão.
A Margarida juntou-se às amigas e levantando o copo bem alto gritou “à
nossa!”. O Guilherme não tirava os olhos dela bebendo um copo atrás do outro.
Passado algum tempo ganhou coragem e juntou-se à Margarida na concorrida pista
de dança. Dançaram até os copos ficarem vazios e riram, riram muito. Ora
abraçavam-se ora trocavam olhares que prometia outra e outra dança. Os pés
começaram a dar sinal de fraqueza e a Margarida decidiu descalçar os seus
enormes saltos enquanto o Guilherme tratava de ir buscar mais um copo.
– A minha mãe sempre me disse para não aceitar
nada de estranhos, sabes? – disse a Margarida sorrindo.
– E fazes muito bem em não aceitar nada de
estranhos. Muito menos um copo. – fez uma pausa e aproximou-se dela – Mas e um
beijo, aceitas?
O coração parecia saltar-lhe da boca. Olhou para
ele sem hesitar e disse-lhe:
– Aceito, mas com uma condição. Prometes que
amanhã tomamos um café e voltas a beijar-me?
– Está prometido! É que nem tenho de pensar duas
vezes. – disse piscando-lhe o olho. – vem cá miúda. – passando a mão pelo rosto
da Margarida, o Guilherme sorriu e inclinou-se para beijá-la.
Passado algum tempo
despediram-se e combinaram encontrar-se num café perto da faculdade no dia
seguinte. Dos cafés depressa passaram ao cinema e aos jantares nas melhores
pizzarias da cidade. Ao fim de algumas semanas o Guilherme decidiu passar à
fase seguinte, convidando a Margarida para jantar em sua casa.
O futuro médico vivia
num T1 super arrumadinho (até demais para um simples mortal do sexo masculino). Ao lado do
pequeno sofá vermelho estava uma guitarra e uma série de estatuetas em
pau-preto que tinham sido oferecidas pelo amigo Afonso, aquando da sua viagem à
Guiné.
Era sexta-feira, chovia
intensamente e a casa do Guilherme, aos olhos da Margarida, era o abrigo perfeito.
Em poucos minutos a massa do Guilherme ficou pronta, o vinho caia nos copos ao
som da voz maravilhosa de Diana Krall.
–
Obrigada pelo jantar Gui, estou a adorar estar contigo. – os olhos da Margarida
brilhavam. Ela estava a apaixonar-se e já tinha dado conta que o Guilherme
sentia o mesmo.
–
Eu também. É muito bom estar contigo miúda, fazes-me tão bem. – disse-lhe
enquanto lhe servia mais um copo de vinho.
Terminado o jantar,
sentaram-se no sofá para provar um delicioso bolo de limão feito pela mãe do
Guilherme. A cada garfada a Margarida procurava imaginar como seria o desfecho
daquela noite. Por debaixo do seu vestido cinzento estava bem guardado um
conjunto de lingerie preto lindo de morrer, ansioso por ser despido.
Terminada a sobremesa,
serviram-se mais uma vez do vinho e permaneceram sentados no sofá com os dedos
das mãos entrelaçados. Conversaram sobre o dia em se tinha conhecido
confessando aquilo que mais tinham gostado um no outro. Mas a conversa durou
pouco tempo. Da sala depressa passaram para o quarto, deixando pelo caminho
algumas peças de roupa e um ou dois sapatos.
O quarto do Guilherme
era simples mas muito bonito. Na parede branca atrás da cama lia-se “Let’s make
a night to remember”, nas restantes paredes perdia-se a conta aos inúmeros
vinis dos anos 80 que lá estavam pendurados e ao lado da cama havia um monte de
revistas que suportava uma relíquia de família, a guitarra clássica do seu avô.
O jantar prometia a
sobremesa que a Margarida tanto esperava, os longos beijos e as promessas de
amor eterno segredadas ao ouvido faziam prever uma noite realmente perfeita. Mas
não nos podemos esquecer que esta minha amiga é do tipo de mulheres que tem
MUITO azar no amor, logo esta história não poderia ter um final feliz e a noite
que tinha tudo para ser inesquecível, acabou por revelar-se uma enorme
desilusão.
–
Desculpa Margarida, desculpa. Eu não sei o que se passa comigo hoje…Descupa-me,
isto não é normal. – o Guilherme apressou-se a vestir os boxers e a acender a
luz do candeeiro.
Já
estás a perceber o que se passou, certo? Pois, aparentemente o Guilherme sofre
do mesmo mal que o João.
–
Não te preocupes – respondeu a Margarida – pode ser do vinho, nós já bebemos
bem mais que uma garrafa, portanto…
–
Pois deve ter sido isso… isto nunca me tinha acontecido, juro-te. – o Guilherme
tentava olhar para a Margarida enquanto ela se vestida mas estava para lá de
envergonhado.
Ficaram ainda mais alguns
minutos na cama a olhar para o tecto, em silêncio. Não havia nada que ele
pudesse dizer que a fizesse esquecer o que se tinha passado, ela estava
completamente perdida nos seus pensamentos ao lembrar-se do que tinha
acontecido com o João. “Será que eu intimido mesmo os homens? Mas como?” –
pensou ela.
Assim que saíram da
cama, a Margarida despediu-se, agradeceu o jantar e foi para casa. Ela estava mesmo
muito desanimada e desta vez não esperava que a situação mudasse e que o
Guilherme quisesse voltar a vê-la. Para ela, o romance que mal tinha começado
já tinha um fim à vista.
Contra todas as suas expectativas, o convite
para jantar repetiu-se. O segundo jantar tinha que ser bem melhor que o
primeiro, por isso, para além de ter vestido um belo conjunto de lingerie, a
Margarida preparou também uma mousse de chocolate branco e frutos vermelhos de comer
e chorar por mais.
Assim que terminou de
se arranjar, olhou para o espelho vezes sem conta para certificar-se de que
estava mais do que perfeita. Retocou o batom, perfumou-se dos pés à cabeça e
saiu de casa. Pelo caminho, ligou o rádio e procurou distrair a ansiedade que
lhe corria no corpo com o melhor do rock’n’roll dos anos 80.
O Guilherme estava à
sua espera à entrada de casa. Recebeu-a com uma rosa, um abraço apertado e um
beijo ternurento. Mal abriu a porta de casa, levou-a diretamente para o
quarto. A tão saborosa sobremesa ficou esquecida no hall de entrada e nem houve
tempo para o prato principal. Provavelmente, o Guilherme quis despachar o
assunto que deixou pendente no primeiro jantar e entrar logo em ação logo. A Margarida, que entretanto já tinha esquecido a
ansiedade, só conseguia sorrir e deixar-se levar pelo Guilherme.
O segundo encontro
começou de uma forma mágica mas...
E a história continua..
Até breve :)